15 de dezembro de 2016

Depois dos redemoinhos

My anxious heart - Katie Crawford
Depois dos redemoinhos passarem a noite comigo, fazendo toda a bagunça de sempre, destelhando casas e arrancando árvores, fica o silêncio.
Depois que eles somem, se escondendo em algum canto que não consigo alcançar, fica a calma. Mas não uma calma boa, não aquela calmaria do mar após tempestade, com pássaros voando. Não uma calmaria de paz.
Fica a calmaria do deserto, a calmaria sufocante. A calmaria que te queima de dia e te congela à noite. A calmaria que não te oferece nenhum copo d'água. A apatia, a incapacidade de grandes movimentos, ou de muitos pensamentos. Só quero sobreviver ao sol e ao frio, chegar do outro lado e tomar um copo d'água.
Amanhã vai ser melhor, me diz a miragem. Amanhã não vai mais ser deserto.
Por quê você não foge? Por quê foi para o deserto? Você escolheu ir para esse lugar. Não escolhi. Os redemoinhos me trouxeram no pequeno período que fechei os olhos. Acordei aqui.
Só quero sobreviver mais um dia. Calor, frio, sede. Amanhã talvez eu encontre água.

26 de agosto de 2016

Restauração

O tempo
Tira o brilho
Vem a traça
E o cupim

O móvel
Outrora belo
De mal cuidado
Já vê seu fim

Os olhos
Do sonhador
Colocam tinta
Pano, verniz

A história
Do móvel velho
É reescrita
Dentro de mim

5 de fevereiro de 2016

Sobre redemoinhos

Você acha que controlou. Agora está tudo bem. Você ri, conversa, ouve, vive, até que BAM! Algo te acerta. E ecoa.
Parece ser pequeno. Você pensa "não é nada de mais" e tenta continuar vivendo, continuar controlando. O redemoinho não pode começar.
Num momento, você pensa de novo. "Para", vai dar problema. O redemoinho começa a se formar lá dentro. "E se..." é a mais frequente. "Para", você pode controlar. "Para, respira".
Você se distrai com coisas, com pessoas. Você está controlando aqui fora. Você está fugindo lá dentro.
Então chega aquela hora. A pior hora. Escuro, silêncio, travesseiro, insônia. BAM! BAM! BAM! BAM! Marteladas por todos os lados. Redemoinho.
E se for. E se não for. Mas porquê. O que eu faço. Vou fugir. Vou sumir. Não aguento. Para, respira. Não adianta. Não vai dar. Para, por favor. Tempestade. Ondas. Ventos. Escuro. Sozinha. Sozinha. Sempre sozinha. Ninguém se importa. Ninguém me escuta. Para, respira. Lágrimas. Porquê. O que eu fiz. Estúpida. Fiz tudo errado. Sempre errado. Sempre sozinha. Vou embora. Para, respira. Dor. Sozinha. Escuro. Porquê.
Uma hora o sono vence.
De manhã, a tempestade acalma. O redemoinho some. Olhos inchados. Braços machuados. "Hoje vou controlar. É só parar e respirar".


Foto: Katie Crawford

2 de fevereiro de 2016

Naqueles dias escuros

 Nos dias que a memória não para, te fazendo ter saudade de quem não volta mais, de dias que não vão mais se repetir

Naqueles dias que ninguém aparece, os seiscentos canais só passam filmes ruins e nenhuma música parece te entender

Nas manhãs que o sol não nasce

Nas noites de temporal

Nos momentos que nem as palavras te sustentam e as respostas sempre são "não sei"

Nesses dias que só as lágrimas caídas preenchem o silêncio

Você está perto

29 de janeiro de 2015

Beggar's Heart


You changed my mind
You said something I had never heard
Something that is too high
It's left me limping and in wonder

Because all the things I know
Suddenly seem so small

When You build, it feels like You tear me apart
When you heal, it always leaves a scar
And even when You fill, You leave me with a beggar's heart

Hands reaching through barred windows
Falling asleep on the sidewalk
You say You draw near to the low
Now I'm here, I know I'm not low enough

Because all the things I know
Suddenly seem so small

When You build, it feels like You tear me apart
When you heal, it always leaves a scar
And even when You fill, You leave me with a beggar's heart

28 de janeiro de 2015

Auschwiz

Ontem, foram celebrados os 70 anos da libertação dos prisioneiros de Auschwitz, campo de concentração para onde iam judeus, ciganos, homossexuais, testemunhas de Jeová e prisioneiros da guerra. Local de morte imediata para crianças, idosos e deficientes.

Minha paixão por história sempre me fez querer saber mais, conhecer os detalhes, e quanto mais sabia, mais aterrorizada eu ficava. São tantos os relatos e tantas as histórias contadas ao longo de todos esses anos, que eu seria incapaz de fazer um resumo aqui. São incontáveis filmes e livros que abordam o tema. Qualquer pesquisa rápida no Google já pode te dar um panorama, caso ainda não saibas muito sobre o assunto.

Em novembro do ano passado tive a oportunidade de conhecer dois campos de concentração: Auschwitz e Birkenau, na Polônia. Eram, de fato, lugar que eu gostaria de conhecer, mas agora é um lugar que não tenho vontade de voltar. A visita nos enjoa, nos perturba. Olhar tudo aquilo e aprender cada detalhe sobre como era o dia-a-dia nos campos choca demais. Eu poderia dizer que é inacreditável, mas esse não seria o adjetivo certo. Pois é real, muito real.

Aconteceu e todos precisam saber para que nunca se repita.
















Independentes

Vejo os meus sonhos espalhados pelas ruas. Ganharam independência e foram morar com outras pessoas. Fugiram de mim e da minha inércia. Fugiram do meu medo e da minha inconstância.
Meus sonhos são felizes agora, pois são realidade. São vida, são ar puro. São passos dados para longe. São sorrisos, são histórias.
Vejo-os de longe, imaginando como seria vivê-los. Aceno, mas eles não me reconhecem, pois não me pertencem mais.
A lágrima no canto do meu olho me faz lembrar que um dia sonhei e que tudo tinha aquela cor diferente. Como faço para voltar a ver o mundo como uma página em branco, pronto para ser inventado?
Os sonhos me escaparam enquanto eu dormia. Despertei e não consigo lembrar.

15 de janeiro de 2015

Retorno

Esses dias ouvi uma frase de uma amiga: sempre temos que retornar.

Talvez se você errou, deva retornar e concertar as coisas. Talvez tenha entrado na rua errada e vai ter que fazer o caminho de volta, para tentar de novo.

Às vezes abrimos os olhos e nem sabemos como fomos parar ali. Parece que uma corrente de ar nos levou flutuando enquanto dormíamos. Quantas coisas se passaram desde a última vez que estava acordada?

Pois bem, fazendo parte desse retorno o Something está de volta.

Talvez menos cor-de-rosa, com menos castelos e fadas. Mais dúvidas e inquietações do que certezas.
As histórias antigas são lindas memórias, mas é hora de escrever algo novo.

17 de janeiro de 2014

Rochas e balões

O que ficou para trás não foi em vão.
Experiência, maturidade, diversão, risadas, amizades.
Dificuldades, aprendizado, valores, sonhos.
Tudo valeu de uma forma ou outra.
Algumas coisas se foram como um balão levado ao vento.
Outras permanecem como as rochas, inabaláveis.
Eu costumava pensar nos balões com melancolia, lembrando como era maravilhoso. E era!
Mas por que chorar?
Nas rochas posso encontrar pedras preciosas.
Posso ter novos balões.
Agora pode ser ainda mais.
Mais risadas, mais amigos.
Mais dificuldades também, mas mais experiências.
Mais sonhos, mais vida.
Quero viver cada vez mais.

14 de novembro de 2013

Perdão

Nós estragamos tudo, eu sei. No meio da estrada, nos desencontramos e fomos um para cada lado, sem olhar para trás. Talvez houvesse espinhos inflamados em nossas mãos, talvez houvesse frases não ditas.

Nós dançávamos juntos. Eu te segurava para não caíres, tu me desafiavas a ir mais longe. Contigo me aventurei e sonhei além do que me sentia capaz. Tu acreditavas em mim. E eu ainda tenho certeza de ti.

Lembro aquela vez que nos abraçamos no final. Foi verdadeiro. Eu realmente te pedia perdão em todas as vezes que dançávamos e naquele final nos abraçávamos. Eu realmente pediria de novo se dançássemos ainda mais uma vez.

Mas não te reconheço mais. Talvez se eu te olhasse de novo, passasse sem notar. Não temos mais 16 anos. Não dançamos mais os mesmos passos. Não sonhamos mais como antes. Quebramos o nosso cristal. Será que um dia poderíamos remontá-lo igual, peça por peça? Talvez pudéssemos começar do zero, comprando um novo.

Pensei em apagar tudo, rasgar cartas e fotos. Mas de que adiantaria isso se sonho contigo a cada noite? Tu ainda fazes parte de mim como poucos.

Que esse desencontro na estrada seja breve. Que os espinhos sarem e as frases escondidas sejam esquecidas. Que encontremos um novo cristal para chamar de nosso. Sinto a tua falta.

Talvez só me falte coragem pra te falar.
Perdão.

Um amor que nem a maior distância pode separar
Pois a vida com Cristo nos deixa lado a lado
E em qualquer lugar que estivermos, através do amor de Jesus,
A família de Deus permanece unida
Venceremos sim firmados no Senhor
Sem deixar que as lutas venham nos separar
E o mundo saberá que somos de Deus
Pois vivemos num só corpo em amor