18 de abril de 2008

Desprendimento

Tudo estava muito bem. Tinha amigas, carro do ano, garotos aos meu pés. Tinha beleza e simpatia. Era querida por todos que me cercavam. Se ficava chateada, uma boa tarde no shopping ou no salão de beleza resolvia tudo, eu achava. Até aquela manhã.
Eu nunca tinha falado contigo direito, a não ser pra te perguntar datas de provas. Todos que andavam comigo te achavam estranho. Nós sabíamos que você era diferente. Eu até que gostava dos textos que você escrevia no jornal da faculdade, mas nunca disse a ninguém. Nunca soube muito sobre você. Nunca achei que, através de você, minha vida mudaria.
Então, no intervalo da faculdade, você veio dizendo que queria falar comigo. Imaginei mil coisas, mas nunca teria acertado o motivo da conversa. Hesitei um pouco. Afinal, minha reputação seria abalada se me vissem falando com você. Como você insistiu, aceitei. E aí você falou. Falou do meu jeito, das minhas amigas, do shopping, do meu carro. Falou do mundo em que vivemos. Do mundo real. Daquele mundo em que pessoas passam fome, em que há violência, em que poucos ainda sonham. Mundo esse que, como você disse, eu ignorava. Me questionou, também, sobre o meu interior. Sobre as coisas simples na vida que eu deixava de lado. Aí eu não aguentei. Nós nem nos falávamos e agora você vinha com isso? Falei que tinha que ir, mas você viu que eu estava era fugindo. Não fugindo de você, mas as verdades que você estava colocando diante de mim. Fugindo da minha própria alma aberta ali na mesinha da lanchonete. Você, então, pediu que eu ficasse e te ouvisse só mais um pouco. Apesar de estar ficando angustiada com tudo aquilo, não fui embora. De algum modo, as tuas palavras verdadeiras e duras, porém suaves, me atraíam. Elas me revelavam, me colocavam diante do eu que nunca ousei mexer, questionar ou tocar. Você continuou a falar. Falou sobre a pobreza, a miséria diante dos meus olhos vendados. Falou sobre minha arrogância, minha soberba. Argumentei que não tenho culpa dos horrores do mundo. Mas você soube me rebater de modo que já não pude mais me justificar. Eu usava máscaras, vendas e grilhões e você me mostrou.
A conversa acabou e você voltou para a aula. Eu fiquei ali sentada. A revolta que brotou dentro de mim se transformou em lágrimas. Chorei por perceber que tudo aquilo era verdade. Chorei por me examinar e ver o vazio. Chorei por não mais me aguentar. Fui pra casa e passei toda a tarde refletindo sobre tuas palavras. À noite, me debrucei sobre o parapeito da janela e observei as estrelas, agradeci por estar viva e comecei a me desprender dos grilhões, a desamarrar as vendar e a arrancar as máscaras. Então, vi o mundo real e entendi. Entendi como ele era e quem pode salvá-lo. Hoje, meu sorriso é outro, minha beleza vem de dentro e meu coração está aberto.

**Inspiração

10 comentários:

  1. Que bom que a protagonista abriu o coração pra receber a mensagem, Bruna. Que bom que ela se deixou tocar pela sensibilidade e olhou o mundo com outros olhos. Quem dera todos fossem assim!

    Fiquei lisonjeado de ter se inspirado no meu texto.

    Beijos.

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  2. nossa vc se inspirou no texto do filipe? Sabe que enquanto eu lia eu lembrei do texto dele?!
    Muito legal...
    Muito obrigado por vc ter passado no meu blog, fico honrado... fique a vontade pra voltar sempre.
    Bjus

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  3. Oi, Bruna! Estava visitando alguns blogs quando encontrei o seu. Gostei! Parabéns! Um abraço e boa semana!

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  4. Bruna,

    Eu já tentei comentar aqui há dias, mas meu comentário nunca ia. Droga! Rs.

    Então, gostei do teu texto. E da proposta que você pegou partindo do texto de Filipe.

    E gostei de baixo. Me lembro Los Hermanos:

    "Abre essa janela primavera quer entrar..."

    Espero que ela chegue logo aí no teu canto!

    Cheiro.

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  5. podemos nos etregar a a frustação ou tentar aprender algo com ela neh? ]
    adorei

    beijos

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  6. Porque sonhas com o outro lado
    Enches o vazio da eterna espera
    Amas quem não podes ter
    Pintas de realidade a quimera


    A liberdade do pensamento vive entre dois mundos…


    Convido-te a conhece-la…


    Bom fim de semana


    Mágico beijo

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  7. Jamais vi um texto que falasse tão dolorosa e verdadeiramente sobre o que nos cega. Sim, somos todos cegos, na verdade. E em seu texto, Bruna, existem vários ganchos que nos mostram que, muitas vezes valorizamos o supérfluo, o fútil apenas pela moda em ter determinados objetos, exibí-los, que nos esquecemos da perenidade de nossas vidas.
    Um dia tudo isso acaba. E depois, vamos fazer o que? Viver de arrependimentos pelo que podíamos ter feito e não fizemos?...

    Li em algum lugar algo muito interessante sobre o sentido de se viver. Parece uma frase tola mas resume bem o sentido de nossa existência:

    "A gente nasce sem pedir. Morre sem querer. Então, o melhor a fazer é tentar aproveitar o intervalo..."

    Aproveitemos cada segundo deste "intervalo", com consciência de quem somos e do mundo em que vivemos.

    Carpe Diem, Querida Bruna!

    Bom fim de semana!

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  8. Bruna,

    que sensibilidade bonita e simples no que escreveste. Um ritmo boom de ler, que vai envolvendo a gente numa história que poderia ser de todo verdadeira. Parabéns.

    Um abraço,

    Cecilia Cassal

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  9. Oi Bruna, tudo bom?!
    Primeiro... Desculpa eu ter te respondido tão rápido... hehehehe... Eu tive um problema com meu computador e só pude entrar mesmo agora.

    Dei uma olhada no comentário e depois na tua foto.. Lembrei na hora quem era! ;]

    Sobre o texto, realmente achei ele muito bom... Representa não só uma realidade mas também o a vida de váárias pessoas... Muito bom mesmo, parabéns.

    Até mais,
    beijo!

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  10. Tava lendo e pensando que já tinha lido algo parecido. O mundo de sofisma inspira qualquer um.
    Eu gosto de revoluções, principalmente as internas, a vida é um bom palco pra´s descobertas que elas trazem.

    E quanto ao "famoso" cantinho, nem é tão famoso assim, mas és bem-vinda. Volta lá sempre, tais linkada também.

    beijo!

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