27 de agosto de 2010

Meu Musical

Às vezes sonho que a minha vida é um musical.

Caminho na rua com uma trilha sonora alegre, o foco de luz em mim. Então, todo o cenário se ilumina e podemos ver as expressões das pessoas ao redor, que cantam algo como "Bonjour" de "A Bela e a Fera".
As aulas não são apenas ficar sentados nas cadeiras ouvindo. O conteúdo é cantado pelo professor, seguido pelo coro de alunos mais inteligentes. Os outros, eu inclusive, aprendemos enquanto dançamos e interpretamos o que está sendo cantado. Podemos fazer mímicas, passos de ballet ou de dança moderna.
Nos ônibus, todos escolhem uma música para cantarem juntos, dependendo do momento do dia, da estação do ano, etc.
Os figurinos são uma mistura da personalidade de cada personagem com a característica da estação do ano. Tudo muito cênico e maleável para proporcionar maior mobilidade aos bailarinos.
As estrelas também cantam, em coro, com três solistas (as Três Marias). Cantam depois de todos já haverem dormido uma canção com suas impressões daquele dia que apenas observaram caladas.
A banda ao vivo tem os mais variados instrumentos, desde os mais tradicionais, como o piano e o violão, como objetos que fazem sons engraçados. Sem esquecer da gaita de boca, sempre usada para momentos de solidão, e da guitarra e da bateria, quando tudo está muito vivo e bagunçado.
E o mais importante, sempre há final feliz.

12 de agosto de 2010

Cansei



Cansei (Carol Gualberto)

Eu cansei de ser chinfrim, cansei de ser meia boca
Eu quero transformar a mim, ai, meu Deus, me dá tua força!

A vida que é toda morna

O sal que nunca salgou
A lâmpada embaixo da cama que nunca iluminou

A fé que sem obras é morta
Discurso que não tem ação
Palavra que não tem valia s
e dita só nessa canção

Eu cansei de ser chinfrim, cansei de ser meia boca
Eu quero transformar a mim, ai, meu Deus, me dá tua força!

Eu gosto de ficar no gueto
Da minha acomodação
Me acho, me abano e abandono o cerne da minha razão

É fácil ficar num cantinho
Com ovelhas e rouxinóis
Mas é no escuro e entre lobos que a candeia brilha como sóis

http://carol-gualberto.blogspot.com/

5 de agosto de 2010

Contador de histórias

O Contador de histórias é um homem cheio de experiências, cheio de sonhos que consegue cativar quem o cerca com seu jeito alegre e sincero. É claro que o que mais gosta de fazer está no nome, contar histórias. Encanta-se ao ver rodeado de interessados ouvintes, mudos com olhos brilhantes de ansiedade. Não sei desde quando ele conta histórias, talvez desde que aprendeu a formar frases. Algumas vezes, as histórias são inventadas. A imaginação do Contador percorre bosques, fazendas, cidades grandes, vai para o mundo da fantasia, com bruxas e cavalos falantes, volta para as ruas de sua cidade... Outras vezes, as histórias são reais, são lembranças de infância, memórias de família, relíquias bem guardadas e cuidadas pelo Contador. Ele as retira das caixas com cuidado, as desembrulha e as mostra para quem perguntar o que é. São lembranças das brincadeiras com os irmãos, dos passeios, dos parentes engraçados, das festas dos tempos de outrora.
Certa vez, o Contador decidiu registrar algumas dessas ideias e lembranças e escreveu um pequeno livro inteiro à mão. Quanto trabalho, Contador! Logo, comprou uma máquina de escrever. Eram tantas histórias a serem contadas que poderia ficar com tendinite. O tempo passou e recomendaram ao Contador que colocasse suas ideias nessa tela brilhosa que apresentaram a ele. Chamam-na de computador, uma coisa muito estranha, com a qual ele não se acostumou muito bem ainda. Mas pelo menos pode voltar no texto, repensar algum parágrafo, mudar aquela palavra e corrigir as vírgulas colocadas por engano. Modernidades às quais o Contador foi-se adaptando. Já escreveu alguns livros com a ajuda do computador. Ainda não publicou nenhum. Quem sabe um dia?
Mas as minhas melhores lembranças do Contador de histórias ainda são aquelas de antes de dormir, em que ele, deitado ao meu lado, narrava as aventuras dos animais da fazenda, da luz verde que se transformava em bruxa, do menino José que fora vendido para o Egito como escravo.
Ontem, o Contador fez 76 anos e essa história merecia ser contada.
Feliz aniversário, vô!