28 de agosto de 2011

Pés molhados

Nossas palavras sussurradas ao vento, escritas nos cadernos escondidos, foram enchendo o balde.
Os pingos de reticências deixaram-no quase transbordando...
Às vezes esbarramos nele, derramando um pouco de água pela sala.
Agora, não adianta mais colocarmos toalhas em volta, parece que nada mais consegue conter a água cristalina que jorra.
Já estou com os pés molhados.
E estou aprendendo a nadar.
Daqui a pouco chuto o balde e mergulho nesse mar profundo.

*Escrito em 19/05/2011

23 de agosto de 2011

Censura

Escondo minhas palavras secretas de ti e do mundo, por paciência, por precaução. Saiba que não faço por mal, mas por entender que cada palavra tem seu momento certo para vir à tona, apesar de poder nascer a qualquer instante. Por isso guardo todas, para um dia te mostrar.

Tu escondes as tuas palavras de mim também. Queres lembrar do que sentias, queres ver se estavas certo. Tuas palavras são teus pensamentos e memórias que saltam do encontro das tuas duas realidades paralelas - a trivial e a reflexiva. Não me mostras porque não gostas de te expor, mas eu sei que tu também entendes o tempo.

Escondemos nossas palavras um do outro, ampliando o segredo e o mistério. Sabemos que elas existem, guardadas sob senhas seguras, mas não ousamos mostrá-las. Censuramos nossas declarações, sonhos e utopias. Cuidamos delas, esperando o tempo de despertarem.

*Texto censurado em 17/05/2011

19 de agosto de 2011

Somos sóis

Amanheceu. Pude ver os raios de sol, senti-los suaves na minha pele.
É o sol mais belo que já vi, pois não apenas simplesmente brilha, mas me faz brilhar também.
Tornamo-nos dois sóis, de brilhos distintos. Um ilumina o outro, equilíbrio.
Tua luz azulada me dá a calma que não encontro nos meus raios vermelho-sangue. Estes, por sua vez, te fazem pulsar e ver que há muito mais para se viver.
Esse equilíbrio de cores e luzes me faz tão bem que pareço voar, cada vez mais para perto do meu sol azul.
Permanecerei brilhando até que não haja mais forças em mim. Estarei para sempre suspirando por teus tons azuis que me completam.
Somos sóis, somos luz.

"Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo... Mas a raposa voltou a sua idéia: - Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música."

O Pequeno Príncipe

* Escrito em 24/05/2011

15 de agosto de 2011

Utopia

Queria que teus olhos fossem pra sempre meus, assim meus olhos nunca se sentiriam sós.
A tua voz seria pra sempre melodia da minha vida e me faria dançar a tua música.
Eu saberia tua senha e leria tuas frases secretas, sem me importar com pontuações.
Tu também lerias as minhas e ouvirias minhas canções escondidas, de melodias erradas.
As reticências só existiriam naqueles momentos em que palavras não são mais necessárias.

Mas tudo isso são utopias...
As incertezas e receios que ainda existem não me deixam acreditar, apesar da esperança que me dão tuas entrelinhas.

*Escrito em 15/05/11

12 de agosto de 2011

Certezas

Se é de certezas que tu precisas, deixa que eu te dou a minha. Deixa os meus olhos confirmarem o que as palavras já deram a entender.

Se te dou minha certeza, fico em falta, preciso da tua em retorno. Permita que eu mergulhe no fundo desse oceano pacífico e desvende-o, e descubra se há algo meu escondido nas profundezas.



*Escrito em 15/05/2011

10 de agosto de 2011

Se eu pudesse

Se eu pudesse, recolocava as estrelas no céu, de modo a escreverem teu nome.
Se eu pudesse, colocava alguns raios de sol numa caixinha para ti usá-los nos teus dias nublados.
Se eu pudesse, eu faria do arco-íris uma grande passarela para passearmos de mãos dadas pelo céu.
Se eu pudesse, pediria para o pôr-do-sol durar mais tempo para ficarmos lá só observando e fazendo nada.
Se eu pudesse, faria nascer um novo tipo de flor, azul e rara, que seria chamada pelo teu nome e com a qual enfeitaria toda a minha casa.
Se eu pudesse, te levaria para viajar um um cometa, iríamos até a lua para ver se há mesmo um coelho por lá.
Se eu pudesse, mudaria o som das batidas do meu coração de "tum-tum" para as duas sílabas do teu nome.
Se eu pudesse, escreveria um livro inteiro só para ti.
Se eu pudesse, pararia o tempo bem naqueles momentos em que nossos olhos se encontram e nada mais precisa ser dito.

*Escrito em 10/06/2011

2 de agosto de 2011

Menina

Sempre te vi menina, de maria-chiquinha, ursinho de pelúcia e pirulitos. Resolvi te cuidar, te contar histórias, ouvir as tuas, rir contigo. Tu nunca choravas, mesmo em estradas pedregosas saltitavas entre as rochas com um riso contagiante. Eras menina, eras criança.

Um dia percebi em ti outras cores, na verdade, uma opacidade trazida pelo tempo. Não era algo ruim, mas aquele cintilar infantil aos poucos sumia. Agora tens estado mais séria, tens te preocupado mais. E esses dias até te vi chorar. Estávamos só nós duas, me contavas tuas novas histórias, dessa vez não havia risadas.

O tempo sempre passa, menina. Com ele vêm as novas histórias, as primeiras lágrimas, o coração que começa a falar. Descobres então mais sobre ti, sobre o mundo. Ainda és menina às vezes, já és quase adulta também. Só não perde esse brilho nos olhos, esses sonhos estrelados, as tuas palavras doces. Cresce, mas nunca deixa de ser menina.