30 de setembro de 2011

Para dias nublados

Quando o dia estiver cinzento, assim como hoje, lembre-se dos dias de sol que já teve. Olhe para o céu e tente vê-lo brincando de esconde-esconde por trás das nuvens.
Nestes dias opacos, olhe para as cores, olhe para as flores, para as vitrines, para os guarda-chuvas cor-de-rosa ou laranja que achar pelo caminho. Vista-se com alguma cor bonita; pode ser azul, que você tanto gosta. 
Nos dias em que se sentir só, abra a sua caixa de recordações e releia suas cartas favoritas, leia cada frase com cuidado e certeza. Se precisar ficar só, desligue o telefone, ouça suas músicas favoritas, ou saia dirigindo até cansar. Mas entenda que na verdade você nunca está só. Então pense em desfrutar um pouco dessa companhia amiga.
Acima de tudo, não perca a esperança. Mesmo que você ache que não a tem mais, eu sei que ela está aí dentro. Eu a vejo algumas vezes bem no fundo dos teus olhos pequenos, brilhando sorridente. Eu a ouço escapando na sua voz quando você fala sobre o que gosta, sobre o que pensa, sobre as suas certezas. Eu sei que você a tem, pois você tem dentro de si a fonte dela. Que é a mesma fonte do amor. Que é a mesma fonte da certeza.
Não deixe a aridez tomar conta do seu coração sedento, mas olhe as nuvens no dia nublado e dance na chuva.

26 de setembro de 2011

Imperfeição

Eu sou muito emotiva e impulsiva. Não tenho paciência com pessoas inconvenientes. Não gosto de repetir muitas vezes a mesma coisa. Choro muito, até por coisas bobas. Sou perfeccionista. Às vezes quero ser independente e fico brava quando falam que mulheres não conseguem alguma coisa... Talvez eu tenha tendências feministas mesmo. Sou um pouco mimada. Já fui muito complexada sobre mim mesma, e isso pode vir à tona. Não falo tudo o que penso, guardo muito coisa, e isso às vezes me faz muito mal. Não sou a maior fã de crianças que conheço, nem pretendo ter filhos cedo. Me importo com aniversários. Dou muitas indiretas. Não fico de bom humor cedo da manhã. Não entendo nada de matemática, só faço contas na calculadora. Tenho momentos de muito silêncio. Tenho momentos muito, muito tagarela. Tenho TPM. Como muito chocolate. Como mais chocolate ainda durante a TPM.
...
...
... Essa lista poderia continuar por muito tempo.

Mas só peço que me ames, apesar dessa imperfeição, e consigas encontrar em mim algo de bom para nunca mais me deixar, pois isso seria o fim do meu ar. Mesmo tentando ser sempre melhor, o erro é inevitável. Só peço então que me ames ainda, pra me perdoar e me abraçar quando eu estiver confusa e imperfeita. Essa inatingível perfeição que busco não é para nada além de te fazer inteiramente feliz.

6 de setembro de 2011

Beatriz

Ela era feita de sonhos e poesia, contava flores, cultivava histórias. "Bem-me-quer, mal-me-quer", recitava baixinho sorrindo, sem prensar se a frase tinha um sujeito ou não. Era morena, morena-rosa, como dizia a mãe. Os olhos escuros, como os do pai, eram grandes, curiosos e observadores. Ainda não era adulta, tampouco era criança. As tias a chamavam "moça", as professoras, "adolescente".
Gostava dos doces da mãe, das músicas do pai, das histórias do avô. Gostava de caminhar sozinha, olhando para o chão. Gostava de sentar em um banco qualquer da praça da pequena cidade, sentindo o sol queimar-lhe o rosto. Gostava do vento, que não se sabe de onde vem nem para onde vai, que não tem raízes. Gostava das palavras, mais das escritas do que das faladas – carregava sempre um caderno e uma caneta para não deixar as ideias escaparem. Gostava dos presentes que a tia mandava da capital.
Ainda tinha fortes lembranças das lágrimas ardendo no rosto e dos soluços silenciados para não deixar a mãe ainda mais triste. Mais de um ano havia se passado e a saudade da irmã doía mais na hora de dormir. O espaço vazio no quarto, o silêncio no lugar das conversas curtas e sonolentas. Ela descobriu então que a vida não passa de um sopro, e seus olhos perderam um pouco do brilho da infância.
Os livros que tinha eram lidos até a página cento e poucos, anotava receitas e nunca as fazia, escrevia cartas e jamais as enviava. Talvez a falta de coragem a fizesse viver um pouco pela metade. Talvez a vida fosse mais sonhada do que vivida.
*Texto para a Oficina de Produção Textual - Tema: Apresentação