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19 de agosto de 2011

Somos sóis

Amanheceu. Pude ver os raios de sol, senti-los suaves na minha pele.
É o sol mais belo que já vi, pois não apenas simplesmente brilha, mas me faz brilhar também.
Tornamo-nos dois sóis, de brilhos distintos. Um ilumina o outro, equilíbrio.
Tua luz azulada me dá a calma que não encontro nos meus raios vermelho-sangue. Estes, por sua vez, te fazem pulsar e ver que há muito mais para se viver.
Esse equilíbrio de cores e luzes me faz tão bem que pareço voar, cada vez mais para perto do meu sol azul.
Permanecerei brilhando até que não haja mais forças em mim. Estarei para sempre suspirando por teus tons azuis que me completam.
Somos sóis, somos luz.

"Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo... Mas a raposa voltou a sua idéia: - Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música."

O Pequeno Príncipe

* Escrito em 24/05/2011

24 de maio de 2011

Livros

Não quero que tudo isso seja mais um conto perdido no meio de um livro de fábulas. Daquelas historinhas que fazem a imaginação voar, mas que são falsas, pois bichos e estrelas não falam.

Também não quero que seja um daqueles romances impossíveis, cheio de desencontros. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, belas histórias, sem finais felizes.

Quero que seja um livro como os da Jane Austen, daqueles que a gente lê deitado na rede no fim da tarde. Daqueles que nos fazem rir e chorar com pequenos detalhes, marcar as frases mais bonitas e terminar de ler com um sorriso.

7 de julho de 2010

Na bigorna

Trecho do livro "Moldado por Deus", de Max Lucado.

Com um forte braço, o ferreiro vestido com um avental põe as pinças dentro do fogo, agarra o metal fervendo e o coloca sobre a bigorna. O seu olho aguçado examina a peça ainda em brasa. Ele vê o que a ferramenta é agora e visualiza o que ele quer que ela seja - mais cortante, mais achatada, mais larga, mais comprida. Com uma visão mais clara em sua mente, ele começa a martelá-la. A sua mão esquerda ainda segura as pinças com o metal quente; e a mão direita bate no metal moldável com uma marreta de aproximadamente 1 quilo.
Na sólida bigorna, o ferro ainda em combustão começa a ser remodelado.
O ferreiro sabe o tipo de instrumento que ele quer. Ele sabe o tamanho. Ele sabe o formato. Ele sabe a força.
Pá! Pá! Bate o martelo. Os barulhos ressoam na loja, o ar se enche de fumaça, e o metal ainda mole responde.
Mas a resposta não vem fácil. Não vem sem um desconforto. Para derreter o ferro velho e refundi-lo como novo passa-se um processo de ruptura. O metal ainda se mantém na bigorna, permitindo que o ferreiro remova as cicatrizes, repare as rachaduras, preenche as lacunas e purifique as impurezas.
E com o tempo, uma mudança ocorre: o que era sem corte se torna afiado, o que era torto se torna reto, o que era fraco se torna forte, e o que era inútil se torna valoroso.
Então o ferreiro para. Ele cessa as batidas e coloca o martelo de lado. Com um forte braço esquerdo, levanta as pinças até que o metal recém-moldado esteja à altura dos seus olhos. Ainda em silêncio, ele examina a ferramenta em brasa. O implemento incandescente é girado e examinado para ver se existem marcas ou rachaduras.
Não existe nenhuma.
Agora o ferreiro entre no estágio final da sua tarefa. Ele mergulha o instrumento ainda quente dentro de um tonal de água. Com um sonido e uma movimentação de fumaça, o metal imediatamente começa a endurecer. O calor se rende ao ataque furioso da água fria e o mineral maleável e mole se torna uma ferramenta útil e inflexível.
"Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações, para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo" (I Pedro 1:6-7)

24 de junho de 2009

Uma família, um país, pessoas**

Eu estava sozinha sentada em um banco com o livro aberto em meu colo quando dei-me conta do que havia acabado de ler. Voltei algumas linhas e rê-li: “Estar sozinha é uma idéia desconhecida para Leila. Ela nunca, em nenhum lugar, esteve sozinha. Nunca ficou sozinha no apartamento, nunca foi sozinha a lugar algum, nunca foi deixada sozinha em lugar algum, nunca dormiu sozinha. Todas as noites dorme no tapete ao lado da mãe. Leila não sabe o que é estar só e nem sente falta disso”. Percebi o quão distante era a minha realidade da dessa moça afegã apenas um ano mais velha do que eu.
Os maiores choques de realidade ocorrem quando algo básico para um não é normal para outro, como ficar só em alguns momentos, por exemplo. No livro O livreiro de Cabul, de Asne Seierstad, esses choques ocorrem a todo instante. A cada página virada, descobrem-se extremas diferenças entre a nossa sociedade e a afegã. A educação, a submissão feminina e sua posição na sociedade, os rituais religiosos, os relacionamentos, o casamento, a liberdade de expressão e até mesmo os hábitos de higiene no Afeganistão impressionam o leitor ocidental. Durante a leitura, confesso que algumas vezes fiquei com raiva diante das injustiças cometidas com mulheres e jovens – baseadas em meus conceitos de justiça, claro.
O livro, lançado em 2006 no Brasil pela editora Record, foi escrito com base nos três meses em que a escritora e também jornalista norueguesa viveu na casa de uma família afegã, na primavera de 2002. Ao cobrir a guerra contra o Talibã no Afeganistão logo após o 11 de setembro, Seierstad conheceu Sultan Khan (nome fictício), dono de várias livrarias em Cabul. Por interessar-se pela história e modo de vida da família Khan, a jornalista foi recebida em sua casa a fim de escrever um livro. Por ser ocidental, a autora diz que era considerada um “ser bissexuado” que podia conviver e conversar com mulheres e homens, ou seja, sem a comum distância e separação mantida na cultura afegã. Lá ela vivenciou e descobriu várias situações que são descritas no livro com um misto de narrativa lírica e reportagem e que revelam a realidade de uma cultura que existe paralelamente à guerra, de uma face do país muitas vezes não mostrada aos ocidentais.
Sultan Khan é um homem culto, bem informado, que gosta da poesia e da história do Afeganistão. Passou por tortura e muitos de seus livros foram queimados na invasão soviética e no período do Talibã. Khan mantém diante da sua família a posição de superioridade conferida ao primogênito e ao marido, obrigando os filhos a trabalharem nas livrarias e não os deixando estudar, tratando a irmã mais nova como empregada, dando mais privilégios à segunda esposa, negociando o casamento das irmãs. Todas essas histórias são contadas como crônicas da vida afegã sob o olhar ocidental da autora norueguesa. Em nem todos os relatos Khan é o centro dos acontecimentos, pelo contrário, o destaque do livro são as mulheres. Mesmo assim, o título do livro nos remete ao livreiro, e assim é a família Khan. Mesmo com as duas esposas, os cinco filhos, a mãe, as irmãs e o irmão que moram no apartamento de quatro quartos de Sultan, ele permanece como a autoridade, o nome sobre todos na família. Sua palavra é lei.
De um modo mais amplo, Asne Seierstad retrata algo além das particularidades de uma família, ela retrata o Afeganistão, país afetado por constantes guerras, desde a saída dos britânicos e da invasão soviética até a interversão americana contra o Talibã e as conseqüentes lutas internas pela afirmação de um governo. É fundamentado no islamismo e, mesmo não estando mais sob o controle Talibã, mantém alguns costumes impostos pelos antigos governantes, como o uso da burca – traje também adotado pela autora para fazer-se “invisível” em Cabul.
Apesar de algumas dúvidas quanto à veracidade dos fatos relatados – alguns críticos supõem a invenção das histórias ou, pelo menos, de parte delas –, O livreiro de Cabul acrescenta aos ocidentais uma nova visão sobre a sociedade afegã, pois mostra que, além das guerras, das proibições, dos rituais islâmicos e dos casamentos arranjados, há uma senhora obesa que esconde tâmaras sob o tapete e as come escondida, há um jovem que odeia ser afegão, fuma e pensa muito em garotas, há uma adolescente assustada que vai casar-se com um homem de cinqüenta anos, há uma professora de biologia que viveu um grande amor e que foi proibida de trabalhar pelo governo. Atrás da cultura, há pessoas que, assim como todas as outras, sejam orientais ou ocidentais, sentem, pensam, sonham e vivem da sua maneira, ou da maneira que foram ensinadas a viver.





** Eu realmente não espero que alguém leia isso além do meu professor. Fiz para a cadeira de Ética em Comunicação e queria colocar em algum lugar...

3 de abril de 2009

Realidade

Às vezes, mergulho em outros mundos que experimento através das palavras. Lugares inabitados, cidades movimentadas, cidades pequenas, Paris. Lugares frios, chuvosos, quentes, agradáveis. Florestas densas, desertos, asfaltos, clareiras. Castelos, casas humildes, mansões modernas, quartos sem cama, salas de música, piano. Pessoas que me emocionam, que me dão raiva, que amam. Sol que se vai, lua que não aparece, encontros, desencontros, finais, inícios. Sonho estar voando, amando, vivendo em cada lugar desses.
Desperto. Estou andando, vivendo, sonhando acordada com minhas realidades existentes apenas nas páginas dos livros. Desanimo, choro... Que aventuras estou perdendo ao ficar acordada! Quero voltar a dormir, voltar a sonhar, voltar a ler!
Abro os olhos. Estou na minha realidade (ora rosa, ora azul). Realidade temida, realidade deixada de lado nos momentos de sonho, mas uma realidade. Feita de altos e baixos, sol e lua, dias e noites, lágrimas e sorrisos, águas doces e salgadas.
Pergunto-me: não seria minha vida um livro também? Sim, um livro que escrevemos juntos. Eu e o Autor. Eu com meus tropeços, Eles com suas promessas.

Amanhecer

Até aquele momento tudo era opaco. Rotina.
Algumas vezes escurecia ao redor. Incerteza.
Outras, eu mesma fechava os olhos. Medo.
Então, ouvi a tua voz. Amanhecer.
Vi os teus olhos. Certeza.
Acordei do sonho. Real.
"Eu te amo".
(Parece que falamos juntos...).
Corações ritmados, batendo como um só.
.
.
Um dia, irá amanhecer.

24 de janeiro de 2008

Mudança

Naquele dia o sol brilhava e as flores dançavam com o vento leve da tarde. Débora caminhava pela estradinha que cortava o bosque prestando atenção em todos os detalhes. Adorava observar a natureza, brincar com os bichinhos e colher flores pelo caminho. Estava muito distraída com tudo à sua volta.
Já estava caminhando há um bom tempo, nem sabia o quanto, e começou a sentir-se cansada. Olhou para trás e viu o quanto já havia caminhado.
- Não é pra menos que eu esteja cansada! Caminhei tanto!
Lembrou-se então de tudo que vira e fizera pelo caminho. Havia partes da estrada um pouco difíceis de caminhar, com árvores caídas, buracos, mas nada que ela não conseguisse ultrapassar. Lembrou dos muitos amigos que fizera pelo caminho, animais e pessoas que encontrou. Guardava todos com muito carinho. Lembrou dos momentos felizes e dos momentos mais tristes da caminhada. Como quando fora picada por insetos! Ficou cheia de bolinhas vermelhas! E também quando levou um tombo e ficou com o joelho roxo, mas agora já estava tudo bem.
Sentou-se à beira da estrada para descançar. E ficou ali alguns instantes, lembrando ainda de tudo que havia acontecido.
- Parece tanta coisa pra tão pouco tempo! Mas, agora, devo continuar. Não posso desistir. Quero saber o que há no fim dessa estrada! Dizem que é o melhor lugar do mundo todo! Onde não há dor nem tristeza. Dizem também que há outra estrada mais bela e fácil de seguir do que esta, mas, por curiosidade, preferi seguir por esta daqui... Espero ter feito a escolha certa.
Neste momento, levantou-se e preparou-se para continuar a jornada. Porém, foi interrompida por uma pombinha muito branca:
- Oh, menina, espere! Você não deve seguir ainda! Espere!
- O quê? Quem é você? Por que não posso seguir?
- Hihihi! Acalme-se com essas perguntas! Bem, fui enviada aqui por meu dono e o recado é que você não pode seguir desse jeito.
- Que jeito? Não entendo...
- Ora! Com estes trajes! A estrada, a partir daqui, é muito mais difícil de seguir. Possui mais insetos, mais buracos, e ainda muito mais!
- Muito mais? Como o quê?
- Montanhas, vales, dragões... Mas não se preocupe é por isso que Ele me enviou.
- Oh! Como seguirei? Há muitas dificuldades! Bem que me avisaram. A outra estrada é bem mais fácil...
- Nem pense nisto! Apesar de mais fácil, ela é enganadora. Leva seus viajantes à morte. Nem pense nisto! Aqui você enfrentará perigos, mas estará segura. Agora, lhe darei suas roupas novas. Essas suas não servem mais. E desfaça essas trancinhas, também não servem.
- Mas é o meu vestido mais bonito! Gosto tanto dele! E o que farei ao invés de tranças? Sempre uso meu cabelo assim!
- Oh! Obrigada, amigas pombas, por trazerem as roupas da moça - disse a pomba, e virou-se para Débora. - Venha! Vista esta calça. Agora esta blusa. Foi feita pelas pombas mesmo. Agora estas botas de cobra. No cabelo, faça um rabo. Perfeito. Simples como a pomba, astuta como a serpente!
- Mas estas não são roupas de uma menina. Me sinto estranha.
- Em primeiro lugar, estas roupas serão mais confortáveis para você enfrentar as dificuldades. Em segundo lugar, por que você esperava receber roupas de menina?
- Porque sou menina!
- Oh... a maioria age assim, mesmo. Amigas! Tragam o espelho. Oh! Sim, obrigada! Vocês estão rápidas, hein? Pois bem, aí está você.
- Oh... Mas... Mas... Eu... Cresci?
- Sim. Distraiu-se tanto com as coisas ao seu redor, que nem percebeu. Mas eis aí a realidade, foi por isso que o Mestre me mandou. Não se preocupe, você escolheu a estrada certa. Haverá dificuldades, é claro. Deves ser como eu já disse: simples como a pomba e prudente como a serpente. E Ele sempre estará te protegendo. Se precisar é só chamá-Lo, Ele sempre te escuta. Não tenha medo. E não digas sou uma criança... Agora és mulher. A estrada ainda é muito longa, mas o que te espera no final recompensará cada luta, cada obstáculo, cada dificuldade. Agora vá, Débora! Até breve!
- Nos veremos em breve?
- Oh, sim! Terás que trocar de roupa mais uma fez, mas lá no fim da jornada.
- O que vestirei, então?
- O mais belo vestido de noiva.
Cheia de coragem, fé e esperança, Débora, então, continuou a caminhar.