24 de março de 2010

Você conhece o Paulo?

     Hoje decidi contar uma história diferente. Ela pode parecer um pouco bobinha até. É sobre um menino, chamado Paulo, que não gostava de goiabada. Tudo começou quando Paulo viu um pedaço de goiabada na mesa do café da manhã no sítio de seu avô. Acho aquilo um pouco estranho... Parecia um tijolo vermelho e gosmento. Chegou perto e cutucou o doce com uma colher.
     "Ai que nojo! Isso parece horrível!"
     Naquele dia ele tomou seu café apenas com um pedaço de bolo de milho, sem provar do tal doce, apesar de toda a família parecer gostar.
     "Aposto que todos estão fingindo, só pra agradar a vovó. Isso é gosmento, vermelho e tem um cheiro enjoativo."
     Ao voltar pra casa, comentou com seus amigos na escola sobre o doce estranho que tinha visto no sítio. Alguns disseram nunca terem provado, outros afirmavam que era ruim, mas havia alguns que diziam que era muito bom. Enfim, cada um na classe tinha sua opinião sobre a tal goiabada. Paulo ficou intrigado. Como pode alguém gostar de uma coisa molenga que parece um verme?
     À tarde, ele foi andar de bicicleta na pracinha perto da sua casa. Chegando lá, encontrou a Ana, uma de suas colegas de classe. Ana estava sentada na grama, na sombra de uma árvore, escrevendo em seu caderno. Ela era uma menina nova na escola, muito quietinha e estava sempre carregando um caderno. Paulo não a conhecia muito bem, mas resolveu conversar com ela, já que não havia encontrado seus amigos.
     No meio da conversa, a menina tirou da bolsa um pote, dizendo que estava com fome e que a mãe havia feito seu doce favorito: goiabada. Paulo levantou-se atordoado. Só de pensar na consistência e no cheiro daquilo já ficava irritado.
     "Como você consegue comer isso? Parece um verme, uma carne crua... Que nojo!"
     Sem ter muita noção do que estava fazendo, Paulo começou a gritar com Ana, pegou o seu caderno e atirou-o longe. Ela, sem entender o porquê daquilo tudo, perguntava ao menino se ele estava bem, se ele era alérgico a goiaba, ou qual era o problema. Paulo saiu correndo e prometeu a si mesmo nunca mais falar com aquela menina estranha.
     Alguns dias depois, na escola, Ana tentou conversar com Paulo sobre o que aconteceu, mas só o que conseguiu foi ser ignorada. Mesmo assim, ela não queria deixar a situação daquela maneira.
     Naquela tarde, a mãe de Paulo entregou-lhe um pacote bem enfeitado com um cartão.
     "Ué... Não é meu aniversário. Pra que isso mãe?"
     "Não sei. Deixaram aí pra você", disfarçou a mãe, que já estava sabendo de tudo.
     O cartão era de Ana, que pedia desculpas por tê-lo chateado tanto, mas que não entendia o motivo da briga. Além disso, ela dizia que o fato de gostar de goiabada não era motivo suficiente para eles não serem amigos. E, no final, dizia que se ele quisesse, podia experimentar o que estava no pacote e realmente ter uma opinião sobre algo que julgava apenas pela aparência.
     Era óbvio o que havia dentro da caixa. Paulo a abriu e desembrulhou uma goiabada grande e bem vermelha. Constrangido com a realidade colocada na carta - de que ele havia julgado sem conhecer -, foi até a cozinha e cortou um pedaço muito fino do doce. Fino, mas suficiente para fazê-lo pegar outro, bem pequeno. Talvez ele não tivesse sentido muito bem o gosto verdadeiro. Depois, ele pegou outro um pouco maior, só para ter certeza. E assim, Paulo comeu quase toda a goiabada numa sentada.
     Hoje Paulo é dono de uma indústria de alimentos. Fabrica e vende produtos coloniais: doce de leite, merengue, mel e goiabada, a especialidade da empresa.

3 comentários:

  1. É, o Paulo julgou mal mesmo... ele era o que mais odiava goiabadas e depois o que mais gostava... interessante, não? "Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com freqüência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar." W.Shakespeare.

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  2. Que lindo texto!
    Nos faz entender que as aparências enganam e que nós não devemos julgar o que ainda nunca vivemos, sentimos ou tocamos.

    Passa la no meu cantinhu e deixe sua marca, tem post novo!

    Bjus!

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  3. Olá, Bruna!
    Que saudades de vir aqui!
    Bom, mas vou voltar com mais tempo e ler tudo o que está atrasado (e comentar também!)
    Hoje eu apenas vim te contar uma coisa: o blog Dominus em parceria com a Loja do Altivo estará sorteando o livro O Último Trem Para Istambul de Ayse Kulin. Participe!
    http://dominus-dominique.blogspot.com/2010/03/loja-do-altivo-dominus-enviam-o-ultimo.html

    Um abraço pra ti!

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