Já havia conversado sobre isso várias vezes com seu Amigo. Ele permanecia lhe dizendo "espera tu pelo Senhor; anima-te, e fortalece o teu coração; espera, pois, pelo Senhor". Essa palavra ecoava no seu coração todos os dias. À noite, olhava as estrelas, marcas das promessas de Deus, e repetia baixinho "espera tu pelo Senhor; anima-te, e fortalece o teu coração; espera, pois, pelo Senhor."
Um dia, percebeu algo curioso. Havia um caminho perto do dela, cercado de flores azuis. O menino que caminhava por ali era quieto. Se chamava Rafael, já o havia visto algumas vezes, mas nunca se falaram muito. Às vezes ela o ouvia tocar. Era um bom músico. Com o passar dos dias, Débora foi ficando cada vez mais curiosa. Ouvia-o tocar, observava-o de longe, começou a sentir-se feliz em estar perto dele. Será possível? Seria essa a novidade? Preferiu esperar mais um pouco. Uma coisa que ela havia aprendido a ser era prudente, desde o início dessa jornada.
Certa vez, Débora foi colher flores e encontrou o menino misterioso. "Oi", disse tímida. "Oi", ele respondeu. A partir daí, conversavam com mais frequencia. Tornaram-se amigos, mas Débora não podia deixar de pensar que esse podia ser o seu sonho de anos, a sua promessa, o trem chegando na estação. Ela lhe mostrou suas histórias, descobriu que ele também escrevia. Ele lhe deu uma rara flor azul, que só existia à beira do seu caminho. Ela lhe deu um caderno vermelho. Ele escreveu nele versos com tinta azul. Ela lhe contou seus sonhos. Ele queria aprender a sonhar mais. Ela chorava às vezes. Ele era calmaria todo o tempo. Ela dançava. Ele tocava.Os caminhos iam se aproximando, assim como Débora e Rafael. Seus olhos já se encontravam por acaso, e eles sorriam timidamente um para o outro. Eles já sabiam o que estava acontecendo. Mas não admitiam. Era até engraçado vê-los assim. Meias palavras, olhares rápidos, sorrisos escondidos e sonhos guardados, muitos sonhos!
Um dia ela falou do sol, que as noites eram períodos de espera e nada podia ser feito para apressá-las. Ele respondeu que o sol podia demorar, mas viria. Eles se entenderam... Não negaram mais pra ninguém que perguntava. Ele era o seu sol. Ela era sua estrela. E agora sim! O céu parecia mais azul, o ar era perfumado, as cores, mais intensas! As palavras eram todas doces, os pássaros pareciam cantar pra ela, até os dias nublados eram inspiração...
O caminho de Débora, com flores vermelhas, e o caminho de flores azuis de Rafael passaram a andar lado a lado. Eles avançavam aos poucos, com cuidado, com a prudência que haviam adquirido no início. Não era mais hora de sonharem sozinhos, aprenderiam a sonhar juntos, a sonhar com o caminho de flores roxas que viria ainda mais à frente...
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