9 de março de 2010

(Não) Dizendo o que sente

Ele a toca no ombro e diz:

- Oi...
- Ah! Oi! Nossa, nem tinha te visto chegar.


(É, na verdade eu vi. Desde o momento em que tu entrou por aquela porta segui cada movimento teu pelo canto do olho. Não via a hora de falar contigo, mas tive vergonha de ir lá no meio dos teus amigos. Eu sei, eu tenho que...)

- Tudo bem?
- Aham...


(Bah! É que eu não tenho conseguido dormir direito... Sonho contigo quase todas as noites. Eu nucna lembro dos sonhos, mas acordo com o teu rosto no meu pensamento e não consigo voltar a dormir. Fico imaginando mil maneira de te contar que...)

- Tu vai no aniversário da Ana?
- Vou.

(Claro que vou! Eu estava do lado dela quando ela te ligou pra te convidar e tu confirmou que ia. Eu até tinha aula na faculdade, mas uma falta não faz mal a ninguém... Sabe como é, não posso perder a oportunidade de te veer e talvez eu até consiga te falar que...)

- Tá, então a gente se vê lá sexta-feira.
- Tá, tchau.

(Mas já tem que ir? A gente nem pode conversar direito! Eu tenho tanta coisa pra te falar...)

5 de março de 2010

Figueira

   
     Apesar da resolução ruim, ocasionada pela câmera do meu antigo celular, essa é uma das minhas fotos favoritas dos meus álbuns. Valor sentimental. Essa figueira fica nos fundos da casa da fazenda do meu avô. Fazenda Shalom. Cada vez que a vejo vem à tona incontáveis lembranças de momentos muito felizes da minha infância e até adolescência... Brincadeiras, bagunças, segredos, planos, animais, balanços, churrascos... Momentos compartilhados com pessoas especiais. Família.
     Hoje quase não vou para lá, a correria da cidade grande me deixou distante da figueira e dos cavalos. Saudade. Nos momentos de nostalgia, a fazenda é um dos primeiros lugares que me vem à mente... Como era bom correr por aqueles campos sem me preocupar com as coisas!
     Até que um dia, com 14 anos, tive que levar um livro da escola para ler na rede - porque depois do feriado iria ter prova! "Dom Casmurro" me marcou muito além de sua história de romance e suposta traição... A partir daí sempre tinha algo para ler quando ia para lá. Já não havia mais correria nos campos, já não encilhava mais meu cavalo e ia ver as vacas e ovelhas pastando. Já estava "muito grande" pra "essas coisas".
     Era tempo de crescer, processo lento tem durado mais de quatro anos. Agora, que ele tem chegado ao fim, lembro com saudade de tudo isso e me imagino Peter Pan. Apenas um devaneio que ainda possa ser a menina que sobe em árvore e toma banho de lagoa. A realidade séria, responsável e comprometida deixa o devaneio se perder no sonho. Acordo e sou adulta.

3 de março de 2010

Aula de ballet


Música clássica, alongamento, barras, espelhos,
Relevé, relevé, relevé.
Respiração ritmada, coração acelerado,
Battement, rond de jambe, grand pliés.
Dor nos músculos, pesos, elásticos,
Développé, changements, cambré.
Meia-calça, grampos, sapatilhas,
Pirouette en dehor, grand jetés.

1 de março de 2010

Oi

Palavra única, de duas letras, com entonações e significados variados.

"Estava com saudades."
"O que você está fazendo aqui?"
"Vá embora..."
"Nem sei por onde começar."
"Não quero conversar."
"Não estou legal hoje."
"Quem é você?"
"Você está bem?"
"Precisamos conversar!"
"Eu te amo."
"Tchau!"
Enfim... Pense em quantos exemplos puder.

O que pode haver por trás de um simples "oi"?

28 de fevereiro de 2010

Medo do novo


Falei, falei e no fim fiquei com medo.

É difícil sair do conforto, é incômodo ser observada. Não gosto que formem ideias falsas sobre mim, por isso, tento não dar motivo a nada. Porém chega uma hora que é preciso se expor, é preciso dar a cara à tapa. E aí vem o medo. Medo de não ser compreendida, medo de fazer algo errado ou precipitado.
Como saber o tempo certo das coisas? Como entender que às vezes vou errar? Como perdoar meus erros antigos? Como não temer o novo, o desconhecido?

Deus.
Em quem minha certeza e confiança devem estar.
Ele me toma pela mão e me guia, pois os Seus olhos veem mais além.

25 de fevereiro de 2010

Aos olhos de Deus

Aos olhos de Deus, a semente é uma floresta e a pedra bruta, um diamante. Foi isso que aprendi por esses dias, foi isso que Gideão, Davi, Moisés e tantos outros aprenderam com suas experiências com Deus.

Gideão era da família mais pobre da tribo de Manassés, ele vivia em Israel em um tempo de opressão por parte do povo midianita. Um dia, durante seu período de trabalho, um anjo apareceu chamando-o de valente e dizendo que Deus iria usá-lo para salvar seu povo das mãos dos midianitas. Justo ele! "Ai, Senhor meu" foi o que ele disse quando soube disso. Apesar das palavras do anjo, Gideão ainda não estava satisfeito, pediu três provas de que Deus realmente queria usá-lo. Ele mesmo não acreditava que seria capaz de tão grande função. Vencer os midianitas sendo o líder do exército?
Para piorar (ou melhorar?) tudo, Deus deixou o exército com apenas 300 homens. Muitos se dispuseram a lutar, mas Deus queria que fosse do seu jeito, queria o sobrenatural. A primeira peneira pela qual os homens passaram foi a do medo. Quem tivesse medo, teria que deixar o exército. Ainda me pergunto como Gideão não foi o primeiro a sair correndo. Talvez nesse ponto da história (depois de três sinais) ele já estivesse convencido que Deus iria agir mesmo. Então, Deus passou a peneira da vigilância ao testá-los na maneira de beber água (Deus ama detalhes e nunca se esquece deles). Assim ficaram 300 homens no exército. 300 homens que teriam que vencer uma multidão incontável como a areia da praia. Isso era o impossível. E o impossível é a matéria-prima para o milagre de Deus. É no impossível que Ele age.
Mas voltando à questão da pedra bruta... Deus provou a Gideão que Ele não o via com os olhos naturais, não o via pequeno e incapaz. Deus o via como um líder, como um homem valente, corajoso! Deus via além das possibilidades, além do que se pode ver.

Às vezes me sinto "a menor da casa de meu pai", a mais fraca, a mais incapaz... Então, Deus me dá uma promessa e diz: "vai nessa tua força". "Ai, Senhor meu", respondo como Gideão. As promessas, os sonhos de Deus parecem tão inatingíveis! O horizonte é tão distante. Então, Ele me dá os olhos da fé e me faz andar sobre as águas. O medo vai embora, já não há limites, eu acredito. Deus me sustenta e me fortalece e eu prossigo para o alvo. Corajosa.

24 de fevereiro de 2010

Contentamento descontente

Naquele dia não havia sol, o que ela detestava, e algumas companhias não eram as ideais. A verdade é que, para ela, tudo parecia uma ilusão profunda e perdida, mais um sonho da menina boba e sonhadora demais. Mesmo assim, não negava que alguma coisa havia acontecido naquela tarde.
Talvez o sorriso dele, ou seus olhos, ou algumas palavras... Sabe quando alguma coisa chama atenção e a gente nem sabe o que é? Era disso que ela tinha raiva. Mas não era uma raiva ruim, era uma raiva feliz. Será que isso existe? Ela sempre fora boa com as palavras e agora as perdia, esquecendo seus sentidos, fazendo-se de ridícula na frente de todos.
Talvez isso tudo fosse apenas um rascunho feito à mão de um futuro um romance de capa dura, pois nada parecia estar no seu devido lugar. Talvez, quando ela conseguisse entender o que se passava, essa história pudesse ter uma ordem cronológica dos acontecimentos.
Uns dias se passaram, eles não mais se viram, e lá estava aquela dorzinha. Uma dor diferente, que parecia fazer bem ao mesmo tempo que doia. Mais uns dias e algo parecia querer saltar de dentro dela quando o viu de novo! E pulsava, e gritava! Como ela controlaria tudo isso?
Que nome ela poderia dar a essa coisa estranha?
Enquanto não achava a palavra certa, tomou para si uma definição aproximada, criada por um poeta antigo, e que talvez mais se aproximasse dessa loucura: é apenas um "contentamento descontente".

23 de fevereiro de 2010

Olhares fugitivos


Teu olhar dura segundos
Quando encontra o meu, foge, desvia.
Medo ou vergonha?
Ou será o meu olhar que foge do teu?
E assim ficamos horas, brincando de olhares fugitivos.

22 de fevereiro de 2010

Super poderes

Por causa da minha heroína favorita, sempre quis ter o poder que ler pensamentos. Até pintei o cabelo de vermelho como o dela pra ver se conseguia! Imagina! Olhar pra pessoa e saber tudo o que ela está pensando no momento. Nunca seria enganada, passada pra trás, traída. Seria poderosa, bem como a Jean Grey.
No entanto, por esses tempos questionei essa convicção de anos. Não porque esse poder perdeu o valor pra mim - mais do que nunca gostaria de tê-lo -, mas porque tive vontade de fazer outra coisa que humanamente não posso: tirar fotos quando bem entendesse sem depender de uma máquina (ou de pilhas!).
Às vezes acontecem momentos inesquecíveis e bem na hora a pilha falha (esqueci de carregar!), ou estou na rua, sem a máquina na bolsa, e vejo algo digno de ser eternizado. Por isso, tenho outro super poder na lista agora: tirar fotos com os olhos. Depois, de alguma maneira, passaria tudo pro computador... Sei lá!
Claro que deste modo eu não sairia em nenhuma foto, mas isso nem sempre é necessário. Eu ficaria feliz em saber que seria eu que teria tirado aquela foto linda daquelas pessoas ou que eu havia chegado no momento exato de bater aquela foto impressionante! Isso seria perfeito. Afinal não é assim que vivem os fotógrafos profissionais?
Não descarto o primeiro super poder. Ler mentes ainda é a minha meta! Mas quando vejo uma paisagem linda sem estar com a minha máquina, o que mais quero são fotos.

21 de fevereiro de 2010

Dia nublado

Débora amava dias de sol. Sempre foram seus favoritos. Sabe aqueles dias ensolarados de primavera com uma brisa leve carregando o perfume das flores que desabrocham? Essa era a ideia de um dia perfeito. Até aquela segunda-feira - a propósito, o dia da semana que mais odiava.
Apesar de ser verão, o dia estava nublado, totalmente cinza, e isso a deixou brava. Justo no verão! Justo quando estava com seus amigos! Lá estava ela reclamando de novo para seu guia e melhor amigo. Por que ela tinha que enfrentar dias assim no verão?
- Tudo coopera para o bem dos que me amam, Débora - foi obviamente sua resposta.
"Mas que frase!!", pensou Débora. "Sempre quando tudo está errado ele solta essa. Às vezes parece brincadeira...". Mas no fundo ela sabia que essa é uma verdade universal e absoluta.
Ela continuou seu caminho, conversando com uma amiga. Quantos amigos havia feito nessa jornada! E melhor do que isso, quantas amizades permaneceram apesar do tempo, do cansaço, das crises...
Ela estava feliz assim. No entanto, lembrava-se de suas últimas conversas com seu Amigo, sobre caminhos que se encontravam, sobre novos sonhos. Estava confiante que aquilo tudo iria acontecer, mas a verdade é que parecia algo muito distante.
Naquela segunda-feira nublada, Débora observou um novo caminho que se aproximava do seu. Não que se cruzassem, estavam próximos apenas. Percebeu que seu Amigo também era o guia dali. Ficou curiosa. Ela bem que poderia encontrar por ali novos amigos, novas flores, até novas cores de lírios - não que os lírios laranjas fossem feios, mas ela sonhava com lírios brancos. Então, olhou para o céu e viu como as nuvens estavam ainda mais escuras. Correu com sua amiga para abrigarem-se sob umas pedras que formavam um tipo de caverna. A chuva forte castigou a terra por um bom tempo. Enquanto estava lá, Débora ficou cuidando se havia alguma movimentação na sua nova descoberta. Curiosa, saiu na chuva e ainda tentou ver mais de perto. Teve medo, podia estar de arriscando muito. Lembrou-se do conselho das pombas, no início de sua jornada, "simples como a pomba, prudente como a serpente". Ficou no limite de seu caminho apenas, procurando alguma coisa nova que fizesse seu coração pulsar mais rápido. A empolgação das novas descobertas sempre a deixam assim.
A chuva aquietou-se, ela também. Por um instante, imaginou-se colhendo lírios brancos no caminho próximo. Coisa de sonhadores... Logo chegou sua amiga, dando risadas.
- Você ficou toda encharcada, Débora! O que queria tanto ver aí?
- Nada, apenas pensei ter visto lírios brancos ali do lado.
- Ora, você e esses lírios brancos! Acalme-se e logo vai achá-los.
Naquela noite, Débora sonhou com suas flores prediletas, plantadas no cruzamento de dois caminhos.